quarta-feira, 25 de abril de 2012



 
 A Velhice e a juventude e os auto-retratos de Rembrandt, um trecho de um e-mail de Antônio Augusto Mariante e um adendo escrito por José Maria Dias da Cruz


Estou hoje lúcido como se estivesse para morrer
Àlvaro de Campos (Fernando Pessoa)


 
“Pelo amor de Deus, não se preocupe também com o envelhecimento - é o preço de uma vida em sua extensão em franco alongamento. Sei que há percalços de natureza física, mas isso faz parte do próprio movimento da mera natureza das coisas. Vejo a velhice como o ponto de culminância de um sujeito, onde mente e espírito atingem o ápice daquela individualidade - entretanto, tal situação só se dá com criaturas de escol, e pouco importa que sejam até analfabetas, pois o relevante não é a cultura adquirida, mas a sabedoria alcançada. Adoro uma negra velha bem sábia, dessas que calejaram suas mãos num tanque e numa cozinha, e se afirmam quase puras quando a morte as abraça.

Entretanto, não é bem esse o caso da maioria dos velhos que tenho encontrado pelo caminho de minha sensibilidade: eles se impõem pelo retrocesso e pela infantilidade, negando a morte como um bom avestruz ou um tola criança inglesa que se recusa a emprestar seu teddy bear.

Adoro John Huston que dirigiu The Death (baseado num conto de Joyce) numa cadeira de rodas e com uma sonda pavorosa entrando por uma das suas narinas. O filme é chato, mas a iniciativa dele é sublime.

Portanto, não se aflija e toque o cavalo no touro! Pinte até o fim! E o resto que se dane!”

Antônio Augusto Mariante



domingo, 22 de abril de 2012

Esboço para uma geometria das cores



Esboço para uma geometria das cores

A forma é mais racional que a cor, esta não permite ser racionalizada. Mas possui uma lógica que pode ser percebida pelo pensamento plástico.
A geometria sempre esteve presente na pintura. A cor permitiu-me criar conceitos básicos ou elementares para construir outros objetos e espaços plásticos mais complexos, e o mais importante desses conceitos básicos foi um ponto. Cézanne disse que somente um cinza reina na natureza e alcançá-lo é de uma dificuldade espantosa. Estudando a obra desse mestre concluí que esse cinza, o qual denominei como sempiterno, é um ponto potencialmente ativo. É um pré ou pós-fenômeno, contém todas as cores de um colorido. Isso, para mim, é uma base para uma geometria das cores, com seus respectivos lugares (topos), temporalidade, intervalos, etc. Mas Cézanne afirmou que a linha não existe em absoluto na natureza. Isso me levou a estudar o serpenteamento vinciano. Leonardo diz que devemos observar com muito cuidado os limites de cada objeto e o modo como serpenteiam. Substitui a linha por esse serpenteamento, que nos dá uma sensação de volume. Observei mais. Afirmei que a cor abstrata é substantiva, uma ideia, subsiste por si só, e que a cor concreta é adjetiva, sua condição é ser no colorido. Por essa observação entendi Cézanne quando ele se refere à natureza em si e a sua própria (ou a minha). Entendi que são outros níveis de realidade, de percepção da natureza, e não uma só, com valor absoluto. Entendi mais: uma sutil referência ao pensamento mágico, quando Cézanne afirma que ele é a consciência da natureza.   
O que não posso admitir é quando vejo o que a maioria dos historiadores de arte fala da geometria em Cézanne. Que um rosto é oval e os braços cilíndricos, por exemplo. Como o próprio Argan, quando diz que para Cézanne uma laranja era simultaneamente uma laranja e uma esfera, pois construía o espaço considerando as formas geométricas históricas. É de uma simplificação irritante. Basta ver e refletir. Cézanne modula pela cor e nunca trata uma laranja encerrando-a em uma esfera. Os limites dos corpos serpenteiam e, nesse serpenteamento, o espaço plástico, que para o mestre em um quadro era sempre uma fração do espaço, anima-se. É-nos interditado um espaço completo, que contenha todos os coloridos. Esse espaço fracionado não morre por uma segunda vez, como nos advertia Leonardo – diz ele que quando transpomos para uma superfície do suporte uma natureza viva, matamo-las por uma primeira vez, pois ela perde sua dinâmica. Cabe ao pintor, com sua sabedoria, evitar que morra por uma segunda vez. E aqui tento substituir uma linha com valor absoluto por uma outra, mas uma dinâmica, que possui uma potência, e é por esta que tanto as figuras como o espaço se animam. 


O cinza sempiterno não existe


Já dissemos que o cinza sempiterno não existe, é um pré ou pós-fenômeno. Nas Cartas sobre Cézanne, de R. M. Rilke, escritas por ocasião da retrospectiva de Cézanne realizada em Paris em 1907, esse poeta notou a inexistência desse cinza. Ele escreveu: “Para Cézanne, o cinza não existia.”

sábado, 14 de abril de 2012

O paraíso de Cézanne

Parágrafos retirados do livro "O Paraíso de Cézanne" de Phiplip Solers. Lamento que o autor tenha citado Picasso e Matisse e não Braque.

Gosto de numerosos pintores (e muito de Picasso) mas nenhum me cormove tanto, sem que o explique, quanto Cézanne. Tento a toda hora entender essa emoção descomprometida, violenta. Parece trata-se de uma emoção do próprio pensar além de toda representação. A devoção religiosa de Picasso e Matisse a Cézanne parece-me normal. "Cèzanne é deus. Sim, mas qual? Não um deus oculto, certamente. "Próximo e difícil de apreender, o deus," diz Hölderlin. Muito próximo. Infinitamente póximo. E tanto mais difícil de apreender.

Os Cezannes que pertenceram a Picasso estão ali, em sua casa, como uma fonte que ele reconhece, um fundamento confessado, e também uma crítica. Como se Picasso tivesse pretendido manifestar, com ests inclusão, que alguma coisa, neste reinventor "divino" da pintura, tenha sido desconsiderada, esquecida, enquanto se parecia ter pressa em segui-lo fervorosamente. É uma estranha experiência descobrir de repente que Cézanne não conduz necessariamente a Picasso, mas ao contrário, vem de novo depois dele. Um outro "antes"? Um outro "depois? Uma desorientação da história da arte, tão arraigada a suas classificações, seus encadeamentos, suas causalidades mecânicas? Uma outra pergunta da história? Cézanne como questão de fundo dirigida à arte moderna, a qual, antes de se decompor diante de nossos olhos, teria pretendido tê-lo assimilado ou ultrapassado? Cézanne como recusa do mito da modernidade, sem que se possa de modo algum uma volta ao passado? Cèzanne não passando, mas tornando-se sem cessar o que ele foi?

Qual o tempo de Cézanne?